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CAPTULO 31 
FUNES DA LINGUAGEM. GRAMTICA E ESTILSTICA 
Segundo Karl Bhler, em teoria universalmente passada em julgado, p sui a linguagem trs funes primordiais: representao mental, exterk 
zao psquica e apelo. 
A lngua nos fornece as formas que estabelecem, na comunicao sod o modo de transmitirmos a nossa compreenso do mundo (funo repre& tativa); mas, paralelamente, 
 o veculo de nossos estados de alma (fun( de exteriorizao psquica), bem como de atuao sobre o prximo, na v em comum (funo de apelo). 
Enquanto a gramttica estuda as formas lingsticas no seu papel de p piciarem o intercmbio social na comunidade, cabe  estilstica estuda expressividade delas, 
isto , a sua capacidade de transfundir emoo e gestionar os nossos semelhantes. 
Assim, a estilstica vem complementar a gramtica. E, como esta, aba 
todas as camadas da lngua: os sons, as formas e as construes. 
Da trs campos de atividade, a saber: 
rfnica 
estilstica lxica 
Lsinttica 
ESTILSTICA FNICA 
O acento de intensidade - j o sabemos -  o que caracteriza a palavras da lngua portuguesa. O de altura s intervm para distingui a orao afirmativa da interrogativa, 
O de durao (ou quantidade) de todo o ponto irrelevante, no tem valor significativo. 
No entanto, a servio da expressividade, costumam combinar-se fundir-se esses trs acentos para realar determinada palavra em sei contexto, envolvendo-a num clima 
de afetividade - espcie de paut sentimental que lhe acompanha a enunciao. 
E o que se chama - acento emocional de insistncia. 
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Tal acento pode consistir no prolongamento da prpria slaba tnica,  qual se comunica, assim, maior durao; ou recair em outra slaba, valorizada, ento, por 
maior intensidade, maior altura, e, s vezes, tambm, maior quantidade. 
Exemplo do primeiro tipo (que os autores costumam indicar, na escrita, pela repetio da vogal tnica): 
"Certa vez, na inaugurao de um edifcio pblico em festa, [Ataxerxes] sentiu no meio da multido que o olhar do amigo pousava no seu rosto, como que o reconhecendo. 
No se conteve e gritou: 
- Ziiito!..." (ANBAL M. MACHADO) 
(Este alongamento como que traduz a aflio do falante em fazer-se 
ouvir). 
Exemplo do segundo tipo, temo-lo em situaes como as seguintes: 
Se pronunciarmos normalmente, sem qualquer trao de natureza emotiva, frases como estas: 
Espetculo formidvel, o das escolas de samba. 
O Rio  uma cidade maravilhosa. 
as palavras formidvel e maravilhosa se proferiro com acento tnico 
apenas nas slabas da e lho, respectivamente. 
Mas se as proferirmos em momento de exaltado entusiasmo, ganharo relevo especial as slabas for (de formidvel) e ra (de maravilhosa), que passam a competir, nessas 
palavras, com as slabas tnicas respectivas: 
formidvel, maravilhosa. 
VALORIZAO ESTILSTICA DOS FONEMAS 
No s as slabas, mas tambm os fonemas podem, predominante- mente, receber valorizao estilstica. Haja vista o aumento da fora articulatria das consoantes 
oclusivas, numa exclamao como - Que boba gein!, na qual o /h! inicial se destaca por uma presso labial mais forte e um abrimento mais brusco, que produz, at, 
uma leve aspirao. Com este reforo fontico, frisamos a nossa impacincia, ou aborrecimento. 
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Desde a Antigtiidade, tm vrios tericos procurado estabelecer uma correspondncia ou relao analgica entre certos fonemas e certas idias, ou sentimentos. 
Em 1898, Blondel publicou uma fonologia esttica do francs, onde se aprende que "o r  fulvo, o 1 cristalino e transparente" etc.; Ren Ghil, que criou a clebre 
teoria do instru.mentismo; o poeta Rimbaud, autor do no menos famoso 'Soneto das vogais': 
"A noir, E blanc, 1 rouge, O bleu, voyelles..." -' 
eis outros tantos pregadores dessa doutrina essencialmente subjetiva. 
A razo, decerto, est com Charles Bally: "On peut donc adopter une thse plus modeste, mais dont les 'esthtes' ne se contenteront pas: 
certains groupements de sons favorisent, le cas chant, une impression des sens, une reprsentation sensible, si le sens du mot se prte  cette association;  
eux seuls, les sons ne parviendraient pas  produire une action de ce genre. "* 
Ou com Maurice Grammont: "Ce que l'on a dit  propos des voyelles, on le rptera pour les consonnes: la valeur qui leur est attrihue ici et qu'elles n'ont qu'en 
puissance ne devient une ralit que si la signification du mot u elles se trouvent s'y prte."** 
Nos seguintes versos de Cmz e Sousa: 
"E a lua vai clortica fulgindo, 
Nos seus alperces etereais e brancos 
A luz gelada e plida diluindo...", 
h, realmente, uma sugesto de 'luminosidade frouxa, fluidez, transparncia', que envolve o leitor numa atmosfera de sonambulismo e magia. No entanto, tal impresso 
decorre da idia contida nos versos e de seu poder de evocao potica - e no da insistncia no fonema /1/. Apreciados to-somente em seu ritmo e melodia - excludo 
o sentido intelectual das palavras, principalmente de algumas delas, como clortica, gelada, plida, diluindo -, pouco ou nada exprimiriam esses mesmos versos. 
Tambm este, de Antero de Quental: 
"Este vcuo noturno, mudo e augusto," 
* Charles Bally, Trai de stylisiquefranaise, 2 cd., 2 vois., Paris/Hcidelberg, Klincksieck-Universitats/Buch-handlung, [s/d], vol. 1, p. 55. 
** Maurice Grammont, ob. cit., p. 395. 
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traduz, timbricamente, pela repetio do lul, a impresso soturna do escuro (audio cromtica); mas o que confere aprecivel valor a essa impresso  a idia que 
est no verso, "sem a qual diramos ler um decassflaho desagradavelmente monofnico". (AM0RIM DE CARVALHO) 
ONOMATOPIA 
A atribuio a certos sons lingsticos, ou agrupamento deles, de capacidade especial para imitar, ou, de certo modo, sugerir determinados rudos naturais,  o que 
se chama ONOMATOPIA: cricri, zumzum, tic-tac, plic-plic, etc. 
Admire-se esta original criao de Guimares Rosa, na qual ele aproveitou as qualidades imitativas virtuais da seqncia voclica ia!, lei, lii, lo!, lul: 
"O mato - vozinha mansa - aeiouava." (de um verbo potencial aeiou-ar). 
A, como que se 'ouve' o barulhinho leve da aragem a ondular o capinzal do mato. 
Manuel Bandeira explorou esse processo com requintada arte, no poema 'Os sinos':* 
"Sino de Belm, pelos que inda vm! 
Sino de Belm bate bem-bem-bem. 
Sino da Paixo, pelos que l vo! 
Sino da Paixo bate bo-ho-ho. 
Sino do Bonfim, por quem chora assim?... 
Sino de Belm, que graa ele tem! 
Sino de Belm bate bem-bem-bem. 
Sino de Belm, 
Sino da Paixo, 
Sino da Paixo, pelo meu irmo... 
* Desse poema Joaquim Matoso Cmara Jr. realizou primorosa exegese, na obra Contribuio para unia estilsca da lngua portuguesa, Rio de Janeiro, 1952, p. 35. 
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Sino da Paixo, 
Sino do Bonfim... 
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim! 
Sino de Belm, que graa ele tem!" 
A, as onomatopias bem-bem-bem e bclo-b7o-b2o, elementos vocabulares  margem do sistema intelectivo, se combinam a palavras de contedo intelectivo (Belm, vem, 
tem; paixo, irmo; Bonfim, mim), que passam, ento, a evocar variados sons dos sinos, em razo de suas potencialidades sonoras. 
Ao lado disso, h os VOCBULOS ONOMATOPICOS:fretenir, rechinar, zinzizular (da cigarra); rwnorejar, fafa1har (da folhagem ao vento); tritilar (do grilo); escachoar 
(de cascatas), badalar, bimbalhar, repicar, tanger, dobrar (dos sinos, com finalidades definidas). 
Quinto Enio, poeta latino da fase arcaica, inventou o vocbulo taratantara, para fingir o toque insistente e pausado das trombetas: 
"Cum tuba terribili sonitu taratantara dixit." 
Assim imita Gil Vicente o tinir de copos de cristal: tirintintim. Para o cantarolar de uma pessoa, Castilho forjou: larilra. Em 'Vai de lrios', B. Lopes empregou 
o verbo flaflar, para reproduzir o barulho de bandeiras ao vento, desfraldando-se ou chocando-se. 
Eis a descrio de uma batalha entre romanos e cartagineses feita 
por Olavo Bilac, no poema 'Delenda Carthago!': 
"As mquinas de guerra 
movem-se. Treme, estala, e parte-se a muralha, racha de lado a lado. Ao clamor da batalha 
estremece o arredor. Brandindo o pilum, prontas, confundem-se as legies. Perdido o freio, s tontas desbocam-se os corcis. Enrijam-se, esticadas 
nos arcos, a ringir, as cordas. Aceradas, 
partem setas, zunindo. Os dardos, sibilando, 
cruzam-se. Eneos broquis amolgam-se, ressoando, aos embates brutais dos piques arrojados. 
Loucos, afuzilando os olhos, os soldados, 
presa a respirao, torvo e medonho o aspeito pela frrea esquamata abroquelado o peito, 
se escruam no furor, sacudindo os macetes. 
No param, entretanto, os golpes dos arietes,* 
* Aqui, a rima com macetes, por licena potica. A pronncia correta  - aretes. 
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no cansam no trabalho os musculosos braos 
dos guerreiros. Oscila o muro. Os estilhaos 
saltam das pedras. Gira, inda uma vez vibrada 
no ar, a mquina bruta... E, sbito, quebrada, 
entre o insano clamor do exrcito e o fremente 
rudo surdo da queda, - estrepitosamente 
rui, desaba a muralha, e a ptrea mole roda, 
rola, remoinha, e tomba, e se esfacela toda..." 
Alm do efeito total de confuso e alarido, repare-se na imitatividade isolada de algumas palavras: enrijam-se as cordas a ringir nos arcos; partem setas zunindt; 
cruzam-se sibilando os dardos. Soberbo  o final, onde a acumulao de erres, o som surdo da vogal nasal 
() de tomba e o .e aberto () de esfacela, avivam a imagem de uma muralha cujas pedras se desconjuntam, e despenham, e esmigalham. 
 inegvel o valor expressivo de grande nmero de palavras portuguesas (e o mesmo acontece em todas as lnguas), provocado pela sua configurao fontica. Est no 
caso - para citar um s exemplo 
- a palavra rolar, em que "as duas consoantes lqUidas do radical correspondem na sua articulao  idia de um movimento desimpedido e contnuo, e o arredondamento 
labial do lo! se casa bem com a forma dos objetos que rolam." (J. MATOSO CMARA IR.) 
REITERAO DE FONEMAS 
Distinta da onomatopia em sentido estrito (ainda que no deixe de ser, em ltima anlise, uma "expanso" dela), a combinao ou a repetio, com finalidade imitativa, 
de fonemas iguais ou semelhantes no curso da cadeia sonora, pode provocar sensao encantatria ao ouvido -, sempre, como j ressaltamos, na dependncia da significao 
das palavras em que esses fonemas se encontram. 
Tais efeitos se realizam, principalmente: 
a) Por homofonia (incidncia da acentuao tnica na mesma vogal). 
b) Por aliterao (repetio da mesma consoante). 
c) Por coliterao (insistncia em consoantes homorgnicas). 
Exemplos: 
"Ttbios flautins fin(ssimos gritavam, 
E, as curvas harpas de ouro acompanhando, 
Crtalos claros de metal cantavam." (OLAVO BILAC) 
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"Mas, muito antes da luz das barras, os passarinhos percebem o sol: 
pio, pingo, pilgo, sugo, pinta-alegrim..." (GUIMARES ROSA) 
"Vozes veladas, veludosas vozes, 
Volpias dos violes, vozes veladas, 
Vagam nos velhos vrtices velozes 
Dos ventos, vivas, vs, vulcanizadas." (CRUZ E SousA) 
"Fogem fluidas, fluindo  fina flor dos fnos." 
(EUGNIO DE CASTRO) 
"Ringe e range, rouquenha, a rgida moenda..." 
(DA COSTA E SILVA) 
"Com grandes golpes bato  porta e brado" 
(ANTERO DE QUENTAL) 
(Eis os fonemas coliterados: 1k! ... Igi; /pI ... Ib/; ... ItI ... /d!.) 
Observao: 
Modernamente, ampliou-se o conceito de aliterao, bem como o de coliterao, em lino do prprio conceito de motivao fnica. No se restringem ambos  repetio 
do mesmo fonema, ou de fonemas homorgnicos, no in(cio de vocgbulos sucessivos, mas abrangem tambm a repetio deles no incio, no meio, ou no fim de vocbulos 
prximos ou mesmo distantes, desde que simetricainente dispostos. * 
EVOCAO SONORA 
Outro fato importante  a evocao sonora, ou seja, o despertar da emoo esttica sem enraizar necessariamente na s expressividade dos fonemas e suas combinaes; 
mas, antes, na perfeita adequao verbal s 'imagens mentais' que o escritor deseja evocar. 
Entram em jogo, ento, predominantemente, a percia na seleo lexical, a posio dos acentos e pausas, a ondulao rtmica da frase, a massa fontica das palavras 
-, tudo a impressionar a nossa snsihilidade e a nossa memria afetiva. 
Veja-se como se consorciam admiravelmente, neste verso de Raimundo Corra, as idias, a um s tempo, de vertiginosidade e luminosidade sbita e instantnea. (E isto, 
independentemente do Ir! inicial de todas as palavras -, o qual no tem, a, nenhum papel onomatopico): 
* Kenneth Burke, lhe philosophy of literary form, on musicalit-y in verso, Nova York, 1941, p. 296. 
482 
"E o cu da Grcia, torvo, carregado, 
rpido,, o raio, rtilo, retalha." 
Repare-se tambm na imagem de extenso e lngura estilizada nestes versos do mesmo Raimundo Corra, nos quais o vocbulo fontico proparoxftono, desenrolando-se, 
como que amplia a noo de espao, j antecipada pelo adjetivo imensa.: 
"Ns amos seguindo; e, em torno, imensa, 
ia desenrolando-se a paisagem." 
No seguinte verso de Bilac, a impresso sonoro-evocativa resulta 
do artstico ajustamento do ritmo das pausas  monotonia da periodicidade das hatids (dos passos) no solo: 
"S perturba a mudez do acampamento 
O passo / regular / das sentinelas." 
A aflio desesperada da falta de ar, figura-a o amargurado Augusto dos Anjos, em versos cuja dificuldade mesma de recitao parece 
adrede huscada para dramatizar a dificuldade e esforo da dispnia: 
"Sobe-me  boca uma nsia anloga  nsia 
que se escapa da boca de um cardaco." 
ESTILSTICA LXICA 
A parte da significao de uma palavra que diz respeito  funo representativa da linguagem  o que se chama - denotao; aquela outra, referente  capacidade dela 
para funcionar como exteriorizao psquica, ou apelo - eis a conota o. 
Uma e outra se combinam para compor a significao integral da 
palavra. 
No  difcil concluir que o exame da conotao se situa na rea 
da estilstica, e s se precisa no contexto. 
Um exemplo curioso: 
Todos sabemos qual  o sentido denotativo de madrasta: "Mulher casada, em relao aos filhos que o marido teve de casamento anterior." Mas tal palavra apresenta 
sensvel conotao de repulsa afetiva, sem embargo das boas madrastas que sempre houve e haver. Por isso, os dicionrios, logo aps a definio principal (que  
sempre a deno483 
tativa), trazem estoutra, conotativa: 'me ou mulher m, pouco carinhosa.' E registram-na tambm como adjetivo: vida madrasta. 
Jos Lins do Rego documenta, em bela pgina de Menino de CIIgenho,* ouso desse nome de parentesco aplicado a uma 'tia-av', pessoa autoritria e perversa - o que 
s se explica pela forte carga emocional com que lhe retrata a personalidade: 
"A minha tia Sinhazinha era uma velha de uns sessenta anos. Irm de minha av, ela morava h longo tempo com o seu cunhado (...). 
Era ela quem tomava conta da casa do meu av, mas com um despotismo sem entranhas. Com ela estavam as chaves da despensa, e era ela quem mandava as negras no servio 
domstico. Em tudo isso, como um tirano. Meu av, que no se casara em segundas npcias, tinha, no entanto, esta madrasta dentro de casa." 
Curioso exemplo de padrasto com esta mesma conotao l-se em 
Murilo Mendes (Poesias, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1959, p. 65): 
"Adeus, universo padrasto, 
Que rejeitas o inocente, 
O rfo, o pobre, o nu." 
Os poetas lricos sabem tirar o melhor proveito de palavras puramente literrias, como alperce, atalaia, cilcio, glauco, heril -, as quais, por sua raridade mesma, 
despertam uma emoo particular, sugerida pela atmosfera aristocrtica em que tm trnsito. Muitas vezes, nem lhes conhecemos o sentido intelectual, mas nem por 
isso deixam elas de impressionar-nos pela fora de sua conotao. 
SRIES SINONMICAS 
, ainda, na conotao que repousa, em grande escala, a escolha 
do termo adequado numa srie sinon(mica. 
Raramente duas ou mais palavras tm a mesma significao, como 
antologia e seleta, bruxo e feiticeiro, cauteloso e prudente, diabo e 
demizio, enganar e iludir. Quase sempre, separam-nas leves diferenas 
* Jesus Belio Galvo, Subcon.cincia e afetividade na lngua portuguesa, Rio de Janeiro, Ao Livro Tcnico, 1979, p. 68. 
484 
de ordem intelectiva - razo por que, entre vrios sinnimos, h um que se impe conforme o contexto, para melhor se ajustar quilo que queremos exprimir. 
Melhor do que falarmos em sinnimos, ser, pois, falarmos em - sries sinon(micas, isto , grupos de palavras que tm uma significao geral comum, mas se distinguem 
por leves idias particulares e se empregam em situaes diferentes. 
Comparem-se, por exemplo, as palavras cara, rosto, face, fisionomia. Todas significam a parte anterior da cabea. Todavia, no usaramos indistintamente umas pelas 
outras. Sentimos logo que cara  palavra vulgar, um tanto grosseira; rosto pertence a uma linguagem mais delicada; face j nos soa como termo culto, mais prprio 
da literatura;fisionomia emprega-se quando se quer aludir aos sentimentos que transparecem no rosto de uma pessoa. 
O que distingue os sinnimos, no plano da denotao,  o seu significado mais amplo, ou mais restrito: educador, mestre, professor; 
recompensa, gratificao, gorjeta. 
O que os diferena, no plano da conotao, prende-se ao efeito esttico: 
a) Emprego usual, ou tcnico: vertigem e lipotimia, fastio e anorexia. 
b) Emprego corrente, ou literrio: criado e fmulo, beijo e sculo. 
c) Nobre, ou plebeu: v(sceras e tripas, narinas e ventas. 
Nestas condies,  a tonalidade afetiva que sobretudo orienta a 
eleio dos sinnimos. 
POLISSEMIA 
No mbito puro da denotao,  preciso levar em conta apolissemia 
- vale dizer a multiplicidade de sentidos imanente em toda palavra, de que resulta que a sinonmia depende fundamentalmente do contexto. 
Observem-se os variados sentidos de romper, nas frases abaixo: 
r Rompeu a roupa no arame farpado. (rasgou) 
Romper um segredo. (revelar) 
. Romperam as msicas! (principiaram) 
O senador rompeu com o governo. (brigou com, desligou-se de) A cavalaria romper as hostes inimigas. (destroar) 
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Ou os do adjetivo grave, em: 
Doena grave. (sria, capaz de ocasionar a morte) 
.) Voz grave. (baixa) 
Vocbulo grave. (paroxtono) 
Homem de aspecto grave. (circunspecto, sisudo) 
Palavras de significao diametralmente oposta dizem-se - a 
n'mas. 
Ora so termos de radicais distintos, ora possuem o mesmo radi 
caracterizando-se um deles por um prefixo de valor negativo: 
abrir-fechar feliz-infeliz 
claro-escuro lealdade-deslealdade 
resistir-ceder normal-anormal 
A verificao das diferenas denotativas ou conotativas entre 
ou mais palavras pode fazer-se: 
a) Pela substituio de uma pela outra ou outras em determit contexto. 
b) Pela determinao de seu antnimo, comum ou diverso de uma delas. 
Assim que, na srie polissmica de grave, acima lembrada, ao 
nnimos que vm entre parnteses poder-se-iam opor, numa esp 
de prova-dos-noves, os seguintes antnimos: 
Doena grave. (leve) 
Voz grave. (aguda) 
Vocbulo grave. (distingue-se de agudo e esdrxulo) 
Homem de aspecto grave. (pouco srio, leviano) 
Mas leve pode, por sua vez, ser antnimo de pesado: 
Mais leve que o ar. - Mais pesado que o ar. 
E aguda, de rombuda: 
Ponta aguda. - Ponta rombuda. 
E grave, especialmente por sua conotao (sugere algo inacc vel, distante, difcil, solene), levar-nos-ia, com maior ou menor ciso e expressividade, a uma gama 
de antnimos, tais como: access simples, e, talvez, extensivamente, simpdtico, agradvel, palavra das que, por seu turno, sero antnimas de outras, em novos conte 
Por a se v a delicadeza desta questo de sinonmia e antonl 
486 
HOMNIMOS E PARNIMOS 
Outro fator de perturbao da boa escolha das palavras  a existncia de homnimas. 
A rigor, s deveriam ser consideradas como tais aquelas palavras 
que, tendo origem diversa, apresentassem a mesma forma, em virtude 
de uma coincidncia na sua evoluo fontica. 
No entanto, sem cogitar da origem das palavras, costuma-se entender sob essa designao todas as palavras que, possuindo forma idntica, designem coisas distintas: 
cabo (posto militar) 
cabo (acidente geogrfico) 
real (verdadeiro) 
real (de rei) 
H homnimos que, apesar de terem os mesmos fonemas, se escrevem diferentemente. 
Exemplos: 
espiar e expiar; coser e cozer; bucho e buxo; insipiente e mcipieizte, sesso, seo e cesso; maa e massa; taxar e tachar, etc. 
Estes chamam-se especialmente homfonos. 
Parnirnos so palavras de forma parecida, que, por isso, se prestam a freqentes confuses de emprego. 
Exemplos: 
infligir e infringir; intemerato e intimorato; ratificar e retificar; 
lactante e lactente; descrio e discrio, etc. 
Grande nmero de parnimos se distinguem pelos prefixos apostos 
a um radical comum: 
eminente e iminente; emigrar e imigrar; 
emergir e imergir; prescrever e proscrever, etc. 
Para ultimar o sumarssimo estudo que acabamos de fazer de estilstica lxica, caberia apreciar aqui as figuras de palavras - que, todavia, sero examinadas em captulo 
 parte (p. 499), para o qual remetemos o leitor. 
487 
ESTILSTICA SINTTICA 
Um dos casos mais notrios de impregnao afetiva da frase  a 
mudana de tratamento - com a qual se assinala inesperada mudana 
de atitude do sujeito falante em relao ao ouvinte. 
Soberbo exemplo, da-no-lo o prncipe do Romantismo portugus, o escritor Almeida Garrett, neste trecho extrado ao drama O alfageme de Santarm: quem fala  o padre 
Froilo, dirigindo-se a dom Nuno Alvares Pereira, condestvel do Reino. Froilo, antigo preceptor de dom Nuno, estava na suposio de que, por ordem deste, ou, pelo 
menos, com a sua aquiescncia,  que fora preso, por traidor, o velho alfageme de Santarm. E, revoltado, exprobra-lhe publicamente o proceder. 
Na violncia de sua acusao, trata a dom Nuno ora por vs (quando se dirige  personalidade do poderoso condestvel), ora por tu (quando, com a autoridade de antigo 
preceptor, se dirige amarguradamente ao amado pupilo de outros tempos): 
"- Ouvis bem, Nuno lvares Pereira? Por traidor o alfageme de Santarm, o marido de tua irm!... E por ordem desse rei, que vs fizestes rei para nos libertar, para 
nos catar nossos foros, para nos guardar justia! Ouves isto, Nuno Alvares Pereira? Ouvis, senhor condestvel do Reino, senhor conde de Ourm? - Quantos mais tftulos 
e honras e senhorios e mercs e grandezas tendes, para eu vos chamar por eles todos, Nuno, e te dizer: 'Es tudo isso, Nuno, dom Nuno; olha agora o alfageme, o homem 
do povo, e v o que lhe fizeste!'" 
Em 'O Fantasma e a Cano', de Castro Alves, esta confere quele 
dois tratamentos: o de tu, piedosamente acolhedor, quando o fantasma 
se apresenta, com humildade, a pedir abrigo: 
"- Mendigo, podes passar!" 
E o de vs, quando o fantasma, falando de seu passado, lhe revela 
que j fora rei: 
"Meu cajado - j foi cetro, 
Meus trapos - manto real! 
- Senhor, minha casa  pobre... 
Ide bater a um solar!" 
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Um pouco diferente, mas gerado pela mesma atmosfera emotiva,  este passo da 'Balada da mulher sozinha', belo poema de Maria Eugnia Celso: 
"Eu sou aquela que, na estao, 
Depois do abrao arrancado do ltimo instante, 
Viu desaparecer na portinhola do vago 
Meus dois rapazes, 
Moos, belos, audazes..." 
 o lamento agoniado da me que v partir para a guerra seus dois 
filhos, mal sados da adolescncia. 
A sintaxe lgica exigiria o possessivo seus: Eu sou aquela que viu 
desaparecer seus dois rapazes... 
Mas o delrio desesperado do sentimento de posse levou a escritora 
quela construo maternamente egosta, realizada com o fortssimo 
possessivo de primeira pessoa. 
Recurso eficaz de demonstrarmos interesse pelo interlocutor  nos 
associarmos afetuosamente a ele, pelo emprego do verbo na primeira 
pessoa do plural - e no na segunda, como seria o regular. 
E ainda Garrett quem nos subministra este formoso exemplo, j recolhido por Sousa da Silveira: 
"- Sim, eu agora ando bom... e tu, meu Lus, como vamos de 
sade?" 
Note-se a discordncia tu... vamos. Mas esse vamos, de flagrante valor estilstico, frisa a cordialidade da nossa pergunta, comunicando  frase um ar de intimidade 
carinhosa, j preparado, alis, pelo vocativo - meu Lus -, onde o possessivo meu como que movera antecipadamente a sensibilidade do autor. 
ANACOLUTO 
No anacoluto encontraremos, talvez, um dos mais freqentes casos 
de sintaxe afetiva. 
Consiste essa figura numa desconexo sinttica, resultante do desvio do plano de construo da frase. Iniciada com determinada estrutura, ela se interrompe de sbito 
e envereda por outro rumo. 
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Exemplo: 
"Tu que, da liberdade aps a guerra, 
Foste hasteada dos heris na lana, 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!..." (CASTRO ALVES) 
Trata-se dos versos finais da penltima estrofe de 'O navio negreiro'. 
O poeta, depois de ter vergastado, com o azorrague da sua maldio, o drama dos escravos supliciados nos pores de um navio negreiro, v tremular no mastro deste 
o pavilho nacional. E, incendiado de clera e humilhao, dirige veemente apstrofe  bandeira, lamentando que ela, que se glorificara nas lutas pela liberdade, 
estivesse a acobertar tamanho oprbrio. 
No seria, portanto, espervel que sua frase sasse racionalmente 
articulada, e, sim, que refletisse o tumulto da paixo que lhe ia nalma. 
Da o desarrumado da frase: a orao iniciada pelo pronome tu continua, com estrutura diferente, no terceiro verso; dela, na forma originria, s ficou o sujeito, 
sintaticamente desligado do resto do perodo, , portanto, sem funo que exercer. 
Quase sempre, o que determina o anacoluto  a colocao, no rosto do perodo, do elemento de maior relevo psicolgico. Nele se concentra por tal forma o nosso interesse, 
que no prestamos ateno  regularidade sinttica e o deixamos a valer por si, sem ligao com os demais membros da frase. 
Outros exemplos: 
"E o desgraado, tremiam-lhe as pernas e sufocava-o a tosse." 
(GARRETT) 
"Os que acompanhavam o enterro, apenas dois o faziam por estima  finada: eram Lus Patrcio e Valadares." (MACHADO DE Assis) 
"Olha: eu, at de longe, com os olhos fechados, o senhor no 
me engana." (GUIMARES ROSA) 
INFINITIVO FLEXIONADO 
Tambm certos casos de infinitivo fle,xionado (que j se estudou em 
seus aspectos normativos) antes se apresentam como exigncias da manifestao psquica e do apelo. 
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No exemplo abaixo, de Alexandre Herculano, parece claro o trao estilstico: 
"Queres ser mau filho, mau amigo, deixares uma ndoa d'inffimia 
na tua linhagem?" 
A flexo (deixares) no , a, requerida pela clareza - seno pela 
nfase: a inteno de reforar a presena do sujeito (j presente em 
- queres). 
COLOCAO DOS PRONOMES TONOS 
O mesmo passa com algumas facetas da coloca2o d.s pronomes oblquos. 
"No  por acaso" - observa argutamente Matoso Cmara Jr.* 
- "que, na linguagem cotidiana, a prclise  de regra com a partcula me em frase imperativa: 'Me d isso!' E que assim se consegue pr estilisticamente em realce 
a prpria pessoa, numa afirmao da tenso psquica e da vontade. A construo - d-me obumbra o pronome; da pode resultar em ltima anlise uma possibilidade para 
maior nfase do verbo -  certo -, o que explica que Joo Ribeiro considere a nclise com o imperativo um ndice da atitude voluntariosa e atribua  prclise o carter 
de delicada insinuao. A interpretao do saudoso fillogo sistematiza uma apenas das possibilidades estilsticas da prclise. E no colide com a tese de que se 
assinala, pela individualidade vocabular do pronome, a personalidade psquica do sujeito falante: essa personalidade se destaca como um centro de interesse permanente, 
tanto no pedido mais suave quanto na ordem mais altiva.** 
Tambm no  por acaso, por outro lado, que os exemplos espontneos mais comuns de nclise se verifiquem com o pronome de terceira pessoa (mormente quando se trata 
de se como ndice de sujeito indeterminado), o qual  em regra um objeto de pouco interesse para nele se concentrar o nosso lan interior." 
* Joaquim Matoso Cmara Jr., Contribuio para uma estilstica da lngua portuguesa, cit., p. 57. 
** No esquecer o papel decisivo da entoao. Conforme ela, a frase, por exemplo, 'Mande-me dinheiro" poder traduzir arrogncia, ou splica. 
Experincia referida por Jakobson: um velho ator de teatro proferiu o mesmo enunciado com 50 entoaes - cada uma das quais com matiz significativo diferente. (Georges 
Mounin, Clefs pour la linguistique, na traduo portuguesa com o ttulo de Introduo  lingstica, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1.970, p. 62). 
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Deve-se, outrossim, incluir nos casos de estilstica sinttica o emprego do estilo indireto livre - cujo estudo, pelo desenvolvimento que 
lhe queremos dar, ser feito no captulo seguinte. 
A INTERROGAO 
Desde que encabeado por pronome ou advrbio interrogativos, o enunciado obedece (como j aprendemos, p. 265) a uma ordem determinada, de conformidade com a qual 
o sujeito deve colocar-se depois do verbo: 
Que deseja voc? A quem amas tu? Quando chegaro os teus amigos? 
Como, porm, em certos casos, tal construo se mostra imprestvel para comunicar algumas cambiantes do nosso sentimento (o termo interrogativo  muitas vezes o 
elemento de maior interesse para ns) 
-, dispe a Lngua de recursos para obviar a este inconveniente. 
O principal deles consiste em usarmos da locuo idiomtica  que, com a qual pomos em evidncia o termo pelo qual queremos perguntar. Este modo de redigir permite, 
alm do mais, o deslocamento do sujeito para antes do verbo: 
Que  que voc deseja? A quem  que tu amas? Quando  que os teus amigos chegaro? 
Meio especial de valorizar o interrogativo que  aditar-lhe o apoio fontico da partcula o, como que desdobrando o referido pronome 
em - o que? 
Exemplo: 
- Que desejas aqui?! - O que desejas aqui? 
Se  para o sujeito que converge o nosso interesse, temos a faculdade de transp-lo para o incio da orao. Assim, em vez de: 
- Como vo as crianas? 
preferiremos formular a pergunta desta sorte: 
- As crianas como vo? 
Com a sua fina intuio estilstica, Machado de Assis no vacilou em escrever: 
"- Capitu como vai?" (Dom Casmurro, 123) 
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